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sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Dez dias de crise e um destino ainda incerto

Desde o início do governo do prefeito Jorge Mário Sedlacek, a população e a imprensa de Teresópolis começaram uma luta de mais de dois anos para derrubá-lo. A corrupção descarada, a falta de vergonha, humanidade e respeito ao povo foram as marcas do reinado de terror daquele que será eternamente lembrado como o pior prefeito do município. Uma cidade pacífica conheceu o caos político administrativo nas mãos de um desqualificado sem consciência. Mas a luta contra Jorge Mário acabou por se tornar uma luta pró - Roberto Pinto.
O ódio a Jorge Mário, cujo governo era rejeitado por 92% da população, de acordo com pesquisas dos jornais locais, se transformou em carinho e respeito por Robertão. Médico, empresário e professor que começou a carreira em profissões que variavam de office boy e até lutador de telecat, Dr. Robertão foi um político honesto e fiel ao povo até o fim. A principal preocupação do prefeito interino, que morreu 44 horas após assumir o cargo, era garantir auxílio de psicólogos e assistentes sociais aos desabrigados da tragédia de 12 de janeiro na cidade.
Além disso, o prefeito Robertão buscava formas de pagar os próximos salários dos servidores municipais, já que não há recursos disponíveis na Casa Rosada. O problema continua sem solução e passa agora às mãos do prefeito Arlei Rosa. O novo chefe do executivo une a esperança de cidadãos oprimidos e humilhados a um futuro nebuloso. O passado conturbado de Arlei e a omissão da câmara de vereadores durante os dois anos e oito meses de atrocidades da prefeitura levam o povo a duvidar do potencial do novo governo interino.   

Ao contrário do que a maioria acredita, não serão convocadas novas eleições em 30 dias. O prefeito Arlei governará durante os 90 dias de afastamento de JM, que podem ser prorrogados por mais 90 dias, totalizando seis meses. Ao final do processo de investigação, ou o governo retornará para as mãos do mandatário afastado ou a câmara cassará o mandato do prefeito.
Se a cassação ou renúncia ocorrer de forma que as eleições possam ser realizadas antes de 31 de dezembro de 2011, a cidade vai às urnas em eleição direta. Porém, se JM perder o mandato ou renunciar após 01 de janeiro de 2012, a eleição será indireta na câmara municipal. As chances de outro legislador assumir o Palácio Thereza Cristina são nulas, o que manteria Arlei na prefeitura por mais um ano.
A ascenção do grupo político (ou ao menos parte dele) do ex – prefeito Roberto Petto, com a posse de Arlei, representa uma pequena vitória para o PMDB, último colocado nas eleições de 2008. Entretanto, o ânimo no partido é controlado, já que a orientação é aguardar o resultado da gestão provisória com cautela, sem grande empolgação. Talvez esse tenha sido o principal erro da administração do PT em Teresópolis: pensar que apenas com alarde e propaganda conseguiriam ludibriar 163 mil pessoas.
A frustação é um sentimento comum em Teresópolis desde 2009, assim como a insegurança. O fato de acordar e não saber qual a próxima punhalada se tornou algo rotineiro. Mas não precisa ser assim eternamente. A dignidade de uma cidade inteira está em jogo a cada passo dos três poderes. Nada é garantido, apenas o desejo universal de justiça: que Jorge Mário Sedlacek e seus aliados paguem por sua gestão criminosa.

Foto: Luciano Zimbrão  

quinta-feira, 16 de junho de 2011

De volta ao batente

Cresce o número de idosos que retornam ao mercado de trabalho depois da aposentadoria




André Coelho e Mário Cajé

O avanço da medicina e da tecnologia farmacêutica são responsáveis pelo crescimento da expectativa de vida da população mundial. Estimativas do Censo realizado pelo IBGE no ano passado mostram que atualmente a média de vida da população no Brasil é de 73 anos, sete a mais  do que se esperava que uma pessoa vivesse em 1991, por exemplo. Além de viver mais, o brasileiro tem vivido melhor. Isso contribui para que mais idosos permaneçam ou, em muitos casos, retornem ao mercado de trabalho. De acordo com a legislação brasileira, qualquer pessoa com mais de 60 anos de idade é idoso.
            A principal razão da permanência dos aposentados no mercado é o baixo rendimento das aposentadorias. “A previdência não tem sido suficiente em termos de oferecer um montante de renda adequado para a sobrevivência”, afirma Danielle Carusi, pesquisadora do Centro de Estudos sobre Desigualdade e Desenvolvimento da UFF. É o caso da auxiliar administrativa Maria Rita Rivero. Aos 69 anos, Maria, que se aposentou em 1997, não pensa em parar de trabalhar.“O salário ajuda bastante. Se não trabalhasse, teria problemas financeiros”, disse.
            Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD/IBGE) de 2009 estimam que os idosos já representam 11,4% da população. Projeções mostram que a faixa etária corresponderá a cerca de 15% da população, em 2020. Enquanto em 1992, 39% dos idosos estavam no mercado de trabalho, em 2009, esta porcentagem pula para 45%.  Assim, o envelhecimento populacional e a volta de aposentados ao mercado já afeta a composição etária da População Economicamente Ativa (PEA). “As vagas do mercado de trabalho podem estar sendo alocadas para os mais velhos em detrimento dos jovens. Em um contexto de baixo dinamismo da economia isto pode gerar uma redução na oferta de vagas dos trabalhadores mais novos”, diz a pesquisadora.
            Quando as possibilidades no mercado formal se esgotam, muitos trabalhadores acabam na informalidade. O porteiro Raimundo Wenceslau, de 61 anos, está a quatro anos da aposentadoria, mas pretende continuar trabalhando informalmente. “Não posso me dar ao luxo de parar ainda. Não conseguiria sobreviver com os descontos sobre o pouco que ganho. Planejo abrir um bar depois de largar a portaria”. Os descontos aos quais Raimundo se refere são fruto do fator previdenciário, uma base de cálculo usada pelo INSS que resulta em redução do salário do aposentado em comparação com o trabalhador da ativa. Isso acontece quando a pessoa resolve se aposentar antes de completar o tempo exigido pela Previdência.
            Questões financeiras à parte, há quem defenda que o trabalho é essencial para a manutenção da saúde. “Trabalhar faz bem para o corpo e para a mente. Se tivesse optado por ficar só em casa, não estaria tão bem como estou”, comemora Maria Rita. Raimundo também vê com entusiasmo a permanência no trabalho: “Tudo o que você faz com felicidade é bom. Tudo. Com meu trabalho é assim. Não vejo expectativas em uma vida sem uma ocupação”.
            Mesmo levando em conta a disposição dos trabalhadores em retornar à ativa, é necessário que o Poder Público se adapte às transformações que a composição da PEA vem sofrendo. “Esse processo gera uma mudança nas políticas públicas, já que este grupo requer alguns atendimentos muito específicos, tais como os relativos à saúde”, completa a professora da UFF.
            Existem duas formas principais de aposentadoria no Brasil: integral ou proporcial. Para ter direito ao benefício integral, o trabalhador homem deve comprovar pelo menos 35 anos de contribuição e a mulher, 30 anos. No caso do benefício proporcional, é preciso que os homens tenham pelo menos 53 anos de idade e tenham trabalhado por, no mínimo, 30 anos. Já as mulheres precisam ter 48 anos de idade e ter contribuído por 25 anos ao INSS. Para mais detalhes, a Previdência Social disponibiliza um canal de atendimento por meio do telefone 135 ou através da página www.previdenciasocial.gov.br.





           


quarta-feira, 27 de abril de 2011

The life of a young storyteller

For the photographer Corinne Dufka, no photo is worth the life of the correspondent. The film "Dying to tell a story" is about this idea from the perspective of Amy Eldon, who directs the documentary. Amy interview brilliantly photographers from different countries while traveling to Somalia in search of answers about the death of his brother, Daniel Eldon, a photographer for Reuters, killed at age 23 while covering the war in the African country. 
       Africa was an essential element for Dan's life, who grew up in Kenya next to Amy and family. The director stresses the love that her brother felt for the continent, which increases the sensitivity month to the viewer throughout the production. Even without any formal training in journalism, a passion for photography and love of Africa, who lived intense military conflicts in the early '90s, led Dan to become a correspondent for Reuters.
                                  

       For photographer Des Wright, something remarkable in the work of a war correspondent's is the personal safety. The integrity of the reporter is the priority for this type of coverage, in the midst of a scenario like Somalia, where, to Wright, the hate was amazing. For him, the photographs conveyed the images, but the smell was really impressive in the midst of so many civilian deaths. In fact, it is more realistic if compared to a photo or story, the emotion felt when witnessing the conflict outweighs any coverage. 

       Carlos Mavroleon says the camera is able to keep the photographer witnessed lightly insulated from reality. Still, the small distance is not sufficient to fully protect the corresponding of the war scenario and the suffering of local people. The journalist's opinion reiterates the fact that the correspondent is, above all, a sensitive man. Mavroleon, who died in 1998, said feel, not as a human being, but like a vulture over a coverage as the civil war in Somalia. 


       The British journalist Martin Bell, a veteran of war coverage, defines the joy of being shot and get away as a source of satisfaction. For Bell, who has been injured during the Bosnian war, the journalist is also affected in the conflict and the act of protect themselves with jackets, for example, is a sign of cowardice. The rush is also a dangerous defect for those who dare this kind of work. Anxiety, something that is common for beginners in this job, also affects the veterans before such extreme situations, which is risky. 
                                  
  Mohamed Shaffi, correspondent who witnessed the death of Dan Eldon, clashes with the cruelty of filmmakers during the war in Eritrea, for example. After a village was bombed, wounded children were taken to a house where they rested in the dark. Shaffi turned the lights of the cameras to film them, which caused severe pain in those kids. The experience traumatized Shaffi, which came to be more careful with their own footage, a basic requirement for any correspondent in the area of ​​litigation. 

            At the end of the documentary, Amy and Shaffi are in Somalia, where the reporter tell the director detailing the circumstances surrounding the death of her brother. Shaffi and Dan were attacked by a mob while covering a UN operation that left 74 civilians dead.Daniel and journalists Hansi Krauss, Anthony Macharia and Hos Mania died in that place. 

            The film depicts the story of a young man in love for the profession and the people who suffered in the poorest region in the world. "Dying to tell a story" shows the power range of journalism and photography, when executed with talent, but also illustrates the damage caused by the madness of civilians exposed to brutality. Daniel Eldon was a victim of a senseless conflict, risk experienced by all the war correspondents. Dan's life is an example of journalistic engagement, missing in the profession, and the massacre of reporters shows the trivialization of life, found in excess in society. 

                       


Photos: www.daneldon.org 

sexta-feira, 15 de abril de 2011

A vida de um jovem contador de histórias

          Para a fotógrafa Corinne Dufka, não há foto que valha a vida do correspondente. O filme “Morrer para contar uma história” trata dessa idéia através da perspectiva de Amy Eldon, que dirige o documentário. Amy entrevista brilhantemente fotógrafos de diferentes países enquanto viaja para a Somália em busca de respostas sobre a morte do irmão, Daniel Eldon, fotógrafo da agência Reuters, morto aos 23 anos enquanto cobria a guerra naquele país.
            A África era um elemento essencial para a vida de Dan, que cresceu no Quênia ao lado de Amy e da família. A diretora destaca o amor que o irmão sentia pelo continente, o que aumenta a sensibilidade passada ao espectador durante toda a produção. Mesmo sem nenhum tipo de treinamento formal em jornalismo, a paixão pela fotografia e o amor à África, que vivia intensos conflitos militares no início dos anos 90, levaram Dan a se tornar correspondente da Reuters.

            Para o fotógrafo Des Wright, algo marcante no trabalho de um correspondente de guerra é a segurança pessoal. A integridade do repórter é a prioridade para esse tipo de cobertura, em meio a um cenário como o da Somália, onde, para Wright, o ódio era espantoso. Para ele, as fotografias transmitiam as imagens, mas o cheiro era o que realmente impressionava em meio a tantas mortes de civis. De fato, por mais realista que seja uma fotografia ou reportagem, a emoção vivida ao presenciar os conflitos supera qualquer cobertura jornalística.
            Carlos Mavroleon afirma que a câmera é capaz de manter o fotógrafo levemente isolado da realidade presenciada. Mesmo assim, o pequeno distanciamento não é suficiente para proteger totalmente o correspondente do cenário de guerrra e do sofrimento da população local. A opinião do jornalista reitera o fato de que o correspondente é, acima de tudo, um homem sensível. Mavroleon, morto em 1998, dizia se sentir, não como um ser humano, mas como um urubu durante uma cobertura como a da guerra civil na Somália.
            O jornalista inglês Martin Bell, veterano de coberturas de guerra, define a alegria de levar tiros e sair ileso como fonte de satisfação. Para Bell, que já foi ferido durante a guerra na Bósnia, o jornalista também é afetado nos conflitos e o ato de se proteger com coletes, por exemplo, é um sinal de covardia. A afobação também é um defeito perigoso para quem se arrisca nesse tipo de trabalho. A ansiedade, comum aos iniciantes na profissão, também afeta os veteranos diante de situações tão extremas, o que é arriscado.

            Mohamed Shaffi, correspondente que  presenciou a morte de Dan Eldon, se choca com a crueldade de cinegrafistas, como durante a guerra na Eritréia, por exemplo. Após uma vila ser bombardeada, crianças feridas foram levadas até uma casa onde descansavam no escuro. Shaffi ligou as luzes das câmeras para filmá-las, o que provocou fortes dores nas crianças. A experiência traumatizou Shaffi, que passou a ser mais cuidadoso com as próprias filmagens, uma exigência básica para qualquer correspondente em área de litígio.
            No fim do documentário, Amy encontra Shaffi na Somália, onde o jornalista detalha para a diretora as circunstâncias da morte do irmão. Shaffi e Dan foram atacados por uma multidão enfurecida enquanto cobriam uma operação da ONU que deixou 74 civis mortos. Daniel e os jornalistas Hansi Krauss, Anthony Macharia e Hos Mania morreram no local.
            O filme mostra a história de um jovem apaixonado pela profissão e pelo povo sofrido da região mais pobre do mundo. “Morrer para contar uma história” exibe o poder de alcance do jornalismo e da fotografia, quando executados com talento, mas também ilustra o estrago causado pelo descontrole de civis expostos à brutalidade. Daniel Eldon foi vítima da insensatez do conflito, risco vivido por todos os correspondentes de guerra. A vida de Dan é um exemplo de comprometimento jornalístico, em falta na profissão, e o massacre dos repórteres mostra a banalização da vida, encontrada em excesso na sociedade.

               

terça-feira, 22 de março de 2011

O poste e a cidade de Tereza

Manifestantes foram às ruas de Teresópolis durante a semana passada para exigir a criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito e uma Comissão Processante na Câmara de Vereadores do município para investigar denúncias de corrupção na prefeitura. Quase 2 mil pessoas se aglomeraram em frente à Câmara na última terça-feira e, novamente, na quinta-feira. Durante o primeiro protesto, bombas de efeito moral foram atiradas na multidão por policiais da Força Nacional de Segurança, instalada no pátio entre a prefeitura e a casa legislativa desde a tragédia das chuvas em janeiro.
Pedras foram arremessadas contra as vidraças do plenário, o que obrigou o presidente da casa, vereador Arlei (PMDB) a encerrar a sessão. Na quinta-feira, policiais da tropa de choque da Polícia Militar protegeram os vereadores que, mais uma vez, não aprovaram o pedido de CPI. Ainda são necessárias duas assinaturas para que a comissão seja aberta e comecem as investigações contra o prefeito.

Desde o início do governo, em janeiro de 2009, o prefeito de Teresópolis, Jorge Mário Sedlacek (PT), protagoniza uma sucessão de medidas estúpidas e demonstra total falta de habilidade para a administração pública. O médico de 54 anos, eleito por representar uma mudança no rumo político da cidade, desperta a ira dos teresopolitanos que, nos últimos dois anos, só receberam inércia, má vontade e descaso do Palácio Tereza Cristina.
No momento catastrófico vivido por toda a serra fluminense após as chuvas de 12 de janeiro, Jorge Mário se aproveitou da exposição na mídia para se promover durante o estado de emergência, desfilando displicentemente por emissoras nacionais enquanto a população era abandonada à própria sorte. Denúncias apontam irregularidades em diversas ações do governo após a tragédia, inclusive na contratação de empresas para desbloquear estradas. O comportamento do prefeito foi coerente à postura adotada em toda a administração. Desde a posse, Jorge Mário foi envolto em um manto de privilégios, isolamento e suspeitas.

Com poucos meses de mandato, o prefeito, conhecido na cidade pelas dificuldades financeiras que enfrentava, se mudou para o condomínio milionário Vale dos Eucalíptos. Como se não bastasse, o atual endereço de Jorge Mário é o condomínio Península Ibérica, igualmente caro. Os dois condomínios são obviamente luxuosos demais para alguém que vive apenas do vencimento de prefeito.


Além da denúncia de "enriquecimento meteórico", a população de Teresópolis está insatisfeita com praticamente tudo o que foi feito pela prefeitura sob o comando de Jorge Mário Sedlacek. Atrasos nos salários e demissões aleatórias de servidores, extinção da secretaria de Defesa Civil (em uma cidade com histórico em deslizamentos de terra), paralização das obras do hospital municipal, obras inúteis e mal executadas no centro, abandono das vias públicas ao ponto de se tornarem intransitáveis, e, acima de tudo, descaso generalizado com o povo. 
 A lista de críticas ao governo Jorge Mário é imensa. Porém, nada supera a ironia grotesca entre a realidade vivida por Teresópolis e o slogan da prefeitura: "Cuidando bem das pessoas". Nesta terça-feira (22) mais um protesto está marcado para o mesmo horário da sessão plenária da Câmara. Resta aguardar se mais dois vereadores assinarão o pedido de CPI para, posteriormente, cassar o mandato do prefeito, que é o desejo dos teresopolitanos. Os manifestantes escolheram a palavra perfeita para definir o sentimento de todos os moradores de Teresópolis após dois anos de desgoverno: "Chega!". 

Fotos:
Reginaldo da Cunha Gonçalves (G1)

terça-feira, 1 de março de 2011

O fim de um silêncio de quatro décadas

A onda de protestos que se espalha pelo mundo árabe pode ser classificada, minimamente, como tardia. A população de países como Egito, Tunísia, Líbia e Yêmen é oprimida a tempo demais para se rebelar apenas em 2011. Mas é compreensível o temor de um povo governado por ditadores violentos como Muammar Kadhafi, por exemplo, em se voltar contra os governos tiranos.
Em comparação ao caos e a história de dominação política vivida pela Líbia, o que foi visto no Egito não foi grave. Perto de Kadhafi, Hosni Mubarak pode ser chamado de democrata. O desafio da Líbia é muito mais árduo e perigoso do que o de muitos vizinhos da região. A situação no país chegou a um nível alarmante de descontrole, o que deixa o resto do mundo sem saber como agir para ajudar a população local.
A eminência de uma guerra civil e crimes genocidas cometidos durante os protestos reforçam a situação de desgoverno e reiteram a fraqueza da ONU e das grandes potências, que não conseguem intervir. A pouca moral da ONU é consequência da inércia da organização durante a invasão do Iraque pelos Estados Unidos em 2003. A falta de ação das Nações Unidas naquele ano iniciou um histórico de desrespeito à entidade e não haveria porque ser diferente nesse caso.
A postura dos Estados Unidos durante os protestos do Egito foi distinta das ações do país diante da crise na Líbia. No caso de Mubarak, a população egípcia derrubou um aliado americano. Washington se viu calada, sem saber como agir. "Pisar em ovos" foi a estratégia principal da Casa Branca e do Departamento de Estado para lidar com os protestos.
Já a possibilidade, por menor que fosse, de queda do ditador Kadhafi é um presente para o presidente Barack Obama, que "exige" a renúncia imediata do líder líbio. A revolução no mundo árabe, no primeiro caso, destruiu um aliado americano e, no segundo, pode ser responsável pela realização de um sonho dos Estados Unidos: se livrar de Muammar Kadhafi.

O presidente da Líbia ficará apenas nos livros de história se a oposição resistir no controle de cidades importantes e dos poços de petróleo do país. O problema é o que Kadhafi fará enquanto ainda detém poder, mesmo que em declínio. A alternativa para evitar um derramamento de sangue e consolidar a revolução seria um golpe militar temporário. Mas enquanto Kadhafi tiver a lealdade do exército, isso é apenas um ideal.
A espera pelos próximos acontecimentos é pior a cada dia, conforme aumenta a tensão em Tripoli e no interior do país africano. Infelizmente as ações internacionais possíveis são poucas. Sanções e bloqueios já foram implementados e uma ação militar estrangeira não solucionaria o problema. O campo de ação externa é limitado, o que deixa a Líbia à própria sorte.  
 Essa revolução pertence ao povo líbio e pelo povo líbio deve ser conduzida. Mas não se pode esquecer que o exército, ferramenta capaz de encerrar a crise, também é parte do povo. Passou da hora dos militares decidirem a quem servem: a um ditador antiquado e detestado globalmente ou à uma população sedenta por liberdade. Não é um dilema difícil de ser solucionado. Resta saber quando terá fim.
Fotos:
BBC
AFP 

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Mais uma tentativa de aproximação

A escolha da nova Chefe da Polícia Civil do Rio de Janeiro, Martha Rocha, não foi consolidada apenas pela experiência de quase 30 anos da delegada na corporação. De fato, a chefe de Polícia conta com experiência suficiente para exercer a função, mas o fator político foi decisivo para a escolha da primeira mulher no cargo. 

A indicação de Martha Rocha se alinha  ao frenesi popular comum à indicação de mulheres para altos cargos administrativos. Essa tática é capaz de acalmar a opinião popular durante tempos de crise, como o vivido pela Polícia Civil após a Operação Guilhotina, que prendeu mais de 30 policiais, civis e militares. O desgaste da instituição só piorou após o ex-Chefe de Polícia, Allan Turnowsky, lacrar a Delegacia de Repressão ao Crime Organizado e promover uma investigação classificada pela imprensa como revanchista.

Além de experiente, Martha Rocha foi escolhida, também, pela popularidade no Estado. A chefe de Polícia foi candidata à vice-prefeita do Rio de Janeiro na chapa de Jorge Bittar (PT) nas eleições municipais de 2004, além de ter sido candidata à deputada estadual pelo PSB. Mesmo sem vencer nenhuma das eleições, o governo do Rio levou em consideração o fato de Martha ser uma pessoa conhecida. Isso, em teoria, facilitaria uma maior identificação pessoal da população com a nova chefe e, por consequência, o fim da crise na corporação. 
Sobre os ombros de Martha está a responsabilidade de recuperar a confiança dos fluminenses na Polícia Civil. Mesmo que de forma indireta, esse é o objetivo do secretário de segurança, José Mariano Beltrame. O tempo dirá se a escolha foi hábil, e se um diálogo mais próximo entre a população e a Polícia será finalmente possível.
Fotos:
Fabiano Rocha
Agência O Globo

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Buscas prosseguem na serra. Número de mortos é imprevisível.

Vinte e três dias se passaram desde a tragédia na região serrana e a tensão causada pela catástrofe em Teresópolis diminui a cada dia. A população tenta seguir a rotina normalmente, mesmo com corpos armazenados até agora em frigoríficos em frente ao Instituto Médico Legal. O trânsito na Avenida Alberto Torres, que estava interditado desde o dia 12 de janeiro, foi liberado.

Com 362 mortos confirmados, as equipes de resgate mantém as operações nas regiões devastadas. Corpos são levados ao IML em ritmo lento, em comparação ao caos inicial. No fim da tarde, o corpo de uma mulher encontrada no bairro da Posse foi trazido pela Defesa Civil para o instituto.

O número de voluntários nos centros de auxílio aos desabrigados diminuiu e, mesmo assim, as doações chegam diariamente. O trabalho se acumula e os galpões lotam de donativos de todo o país. Ainda não há previsão de quando os recursos para aluguéis sociais serão liberados. Enquanto isso, as famílias vitimadas pelas chuvas continuam nos abrigos da prefeitura.
Apesar de toda normalidade aparente na cidade, policiais da Força Nacional de Segurança ainda patrulham Teresópolis. O movimento de operários do Rio de Janeiro que trabalham para controlar os prejuízos da tragédia é intenso. Funcionários da concessionária de energia elétrica AMPLA tentam restabelecer o fornecimento de eletricidade em bairros até pouco tempo isolados, como Cruzeiro, na zona rural.

A boa notícia em meio a todo o caos é que o tempo se mantém firme nas últimas semanas. As chuvas são cada vez mais raras e fracas, o que facilita as buscas. Não há previsão de quantos corpos ainda não foram encontrados. Voluntários acreditam que centenas de corpos jamais serão localizados. Bairros inteiros se tornarão verdadeiros cemitérios.
Fotos
Vinicius Tozato
André Coelho

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Cidade retoma o ritmo mas bases precisam de voluntários

Duas semanas após a tragédia que destruiu parte de Teresópolis e deixou, até o momento, 344 mortos, a cidade começa a retomar a rotina. O comércio já funciona normalmente e aos poucos a população segue a vida na região. Mesmo assim, a dor pela tragédia mantém a cidade de luto e as autoridades mobilizadas.

Milhares de desabrigados continuam a espera de alimentos e itens básicos. Os postos de doação, como o da Cruz Vermelha, estão lotados. Não há mais espaço para receber doações como roupas, por exemplo. A prioridade é para gêneros alimentícios e material de higiene pessoal e limpeza.

O processo de triagem e de distribuição dos donativos ainda é lento. O volume de voluntários cai diariamente. O calor da emoção inicial, somado ao desejo irrepreensível de exposição na mídia, começa a desaparecer, assim como a maior parte dos voluntários. Centenas ainda resistem e trabalham mais de 10 horas por dia para garantir a alimentação das famílias, mas o número de pessoas dispostas a auxiliar nos serviços diários caiu drasticamente.

As equipes de buscas se mantém à procura de corpos nas regiões atingidas pelos deslizamentos. O número de corpos no Instituto Médico Legal de Teresópolis é pequeno, mas as expectativas para o número final de vítimas pode passar de 1000. Teresópolis não sabe se o pior já passou ou se a catástrofe vai piorar ainda mais.
 Fotos:
Vinicius Tozato
André Coelho 

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Helicóptero do Exército cai em Friburgo

Um helicóptero do Exército caiu em Nova Friburgo nesta quinta-feira. A aeronave que auxiliava no transporte de alimentos e vítimas caiu ao receber uma rajada de vento enquanto pousava no bairro Campo do Coelho. Cinco passageiros ficaram levemente feridos, inclusive o presidente da Cruz Vermelha de Teresópolis, Herculano Abraão.

O número de mortos na região serrana até agora é de 740. Em Teresópolis, foram confirmadas 304 mortes. O número aumentará, mas o ritmo dos resgates está extremamente lento. O trabalho de voluntários continua em vários centros de apoio aos desabrigados e pontos de coleta de doações. A Cruz Vermelha concentra grande parte dos itens entregues pela população e por empresários.

O espaço cedido para a organização por uma igreja está completamente lotado. O principal pedido da Cruz Vermelha é que caminhões estejam disponíveis para distribuir as doações estocadas. O espaço, mesmo sem comportar mais nada, aperta cada vez mais doações em cada centímetro disponível. A Cruz Vermelha luta para ajudar as vítimas da maior catástrofe da história do Brasil. Não há previsão de quando o caos no qual Teresópolis está envolvida se amenizará. 

Fotos:
Marcelo Piu
Vinicius Tozato
André Coelho 

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Cruz Vermelha recebe doações de todo o Estado

A Cruz Vermelha continua recebendo doações para os desabrigados pelas chuvas que atingiram Teresópolis. Caminhões são descarregados durante todo o dia na base da entidade, na Igreja de Santo Antônio. Empresários de cidades, como Nova Iguaçu, enviam constantemente roupas, alimentos e produtos de limpeza para a instituição, que está instalada logo na entrada da cidade.

No sétimo dia de crise na cidade e com mais de 300 mortos, a organização se tornou o segundo principal centro de doações de mantimentos para as vítimas da enchente. O ginásio Pedrão continua como principal ponto de acumulação de donativos. O espaço da igreja cedido à Cruz Vermelha está praticamente lotado. O importante agora é redirecionar as doações para outros abrigos. Os voluntários recebem diariamente tratamento fisioterápico gratuito, para prevenir lesões durante o trabalho. 

Quase todas as regiões afetadas foram alcançadas pelas equipes de buscas. Mas a espectativa é de que o número de mortos aumente ainda mais. O número de desaparecidos passa de 200. Nesta quarta-feira, as chuvas deram uma trégua e fez calor quase todo o dia. Bombeiros, Defesa Civil e voluntários seguem escavando a cidade à procura de vítimas.

Fotos: André Coelho

SUGESTÃO DE ACESSO
 http://www.ochiador.blogspot.com/

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Cruz Vermelha transfere centro de operações para igreja

Após acusar a prefeitura de Teresópolis de impedir a organização de ajudar as vítimas das enchentes, a Cruz Vermelha passou a funcionar na Igreja de Santo Antônio, no bairro do Alto. Voluntários descarregam carretas e veículos particulares durante todo o dia. Dali saem doações para abrigos e igrejas espalhados por toda a cidade.

Uma semana depois da catástrofe que matou 285 pessoas até agora, o número de voluntários na cidade continua alto. Doações da população e de empresários lotam os centros de distribuição. Mas os coordenadores ainda precisam de itens essenciais, como material de higiene pessoal e alimentos básicos. Arroz, feijão, farinha, óleo, macarrão, sabonete e roupas íntimas são os artigos mais importantes.

Choveu forte na tarde de terça-feira em Teresópolis, mas as equipes de buscas prosseguem as operações de resgate. Moradores e voluntários também escavam os terrenos cobertos de lama e entulho à procura de parentes. O número de desaparecidos até agora é de 200, mas moradores dos bairros atingidos afirmam ser bem maior. 

Bairros inteiros foram abandonados e a população critica comerciantes por exploração de preços de mercadorias, além de acusar os socorristas e os governos municipal e estadual de omissão. Sobreviventes da tragédia afirmam que corpos localizados não foram resgatados porque as equipes simplesmente não recolheram as vítimas.  
 Petkovic abriu uma Conta Poupança no Bradesco para que todos façam suas doações para ajudar às vítimas das enchentes no estado do RJ.
Banco Bradesco 237 Ag. 213-5 C/p. 1008425-3 em nome de Dejan Petkovic
 
Fotos: 
Guilherme Brito
André Coelho 

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Brigas entre autoridades complicam os resgates em Teresópolis

Com 274 mortos só em Teresópolis, a cidade recebeu ajuda externa para continuar as buscas por corpos e possíveis sobreviventes da tragédia causada pelas chuvas da madrugada de 12 de janeiro. Exército, Marinha, Cruz Vermelha, Defesa Civil, Bombeiros, Força Nacional e as polícias Civil e Militar trabalham ao lado de voluntários do próprio município. Mas o aglomerado de oficiais está causando tumulto em algumas operações.

O problema está, principalmente, com os agentes de fora da cidade. Moradores de bairros como a Cascata do Imbuí, acusam a Força e os Bombeiros de não cooperarem para o recolhimento de corpos. Essa é a principal reclamação da população que ainda não recebeu ajuda nos bairros isolados. 
A Cruz Vermelha foi à imprensa acusar a prefeitura de atrapalhar as ações da organização internacional. De acordo com assistentes sociais da entidade, guardas municipais teriam impedido que equipes médicas deixassem o galpão usado pela Cruz Vermelha para realizar atendimento aos feridos. A prefeitura negou a acusação e afirma que trabalha em parceria com a organização. 
Outro problema comentado por policiais civis foi a forma de ação do Exército, que praticamente tomou as ruas de Teresópolis. Aparentemente, o Exército estaria impedindo a entrada de policiais em algumas áreas de risco. Os militares continuam patrulhando a cidade e o desentendimento foi controlado. 

Vários pontos da cidade apresentam quedas de barreiras, inclusive nas regiões mais próximas ao centro, que não foi tão atingido. Casas luxuosas e comunidades mais carentes continuam ameaçadas com possíveis novos deslizamentos de terra. A previsão para essa semana mostra que o tempo vai melhorar, mas já chove em São Paulo. Mesmo com um pouco de sol, a chuva voltará em breve.

O Instituto Médico Legal ainda guarda aproximadamente 40 corpos nos frigoríficos instalados na avenida em frente ao prédio. Na tarde desta segunda-feira, uma das geladeiras quebrou, e o quarteirão foi inundado pelo odor de putrefação. O equipamento foi concertado rapidamente, mas o mau cheiro persiste. 
A prefeitura distribui diariamente refeições para os funcionários e voluntários do IML. Peritos, papiloscopistas e auxiliares recebem almoço e jantar diariamente desde o segundo dia da crise. O movimento em frente ao instituto caiu, mas pode aumentar com a descoberta de novas vítimas.

 Ainda nesta segunda, um jovem de 20 anos morreu em um acidente de carro na estrada Teresópolis-Friburgo, enquanto dirigia para fazer doações aos desabrigados. O corpo foi levado para o necrotério onde estão as vítimas das enchentes. Três pessoas feridas no acidente continuam internadas. 
Os dias passam e o caos persiste em toda a região serrana. A população se mobiliza para aliviar o sofrimento dos que perderam tudo. As bandeiras no Palácio Tereza Cristina, onde funciona a prefeitura, estão a meio mastro. Teresópolis ainda chora seus mortos.

Fotos: André Coelho 

domingo, 16 de janeiro de 2011

Teresópolis recebe reforços para agilizar operações de resgate

O Exército e policiais civis de delegacias da capital reforçaram as operações de resgate e o controle do trânsito nos acessos às áreas de risco como Fischer, Poço dos Peixes e Três Córregos, em Teresópolis. A Força Nacional de Segurança e a Polícia Militar passaram a patrulhar pontos estratégicos da zona urbana do município. Desde o início da crise causada pelas chuvas, o número de pessoas nas ruas do centro cai diariamente. 
Cinco dias após a tragédia que devastou Teresópolis, a população obedece aos apelos da Defesa Civil e da prefeitura para permanecerem em casa. O trânsito, que estava completamente congestionado na quarta e quinta-feira, está fluindo regularmente, mesmo com as interdições espalhadas pela cidade. O número de carros nas ruas diminuiu, assim como o de pedestres. A maior parte do movimento é de voluntários para os centros de recolhimento de donativos e de apoio aos desabrigados, além de moradores que precisam comprar mantimentos. 
A BR-116, Rio-Bahia, é um dos acessos principais para os bairros mais afetados pelas chuvas. Na estrada, barreiras desabaram sobre a pista, e o entulho é acumulado nos acostamentos. Homens da Defesa Civil e dos Bombeiros trabalham para liberar completamente a rodovia e para garantir o acesso das equipes de buscas. 


Por toda a estrada é possível encontrar pilhas de móveis estragados pela chuva, além de carros arruinados pela enchente. Famílias continuam trabalhando para limpar a lama das casas que resistiram ao poder das águas. Os moradores que tiveram as casas interditadas retiram os pertences que restaram durante todo o dia e saem em busca de abrigo.


O Ginásio Pedro Jahara, o Pedrão, começa a se tornar um ponto de captação de alimentos. Os desabrigados são distribuídos por 17 abrigos em toda a cidade. Mesmo com espaço de sobra, o Pedrão não acomoda as famílias com o mesmo conforto oferecido em locais como a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, no bairro da Barra. Ainda existe resistência em abrir as escolas estaduais para receber a população, o quje facilitaria o redirecionamento das vítimas no ginásio. A preocupação principal é com um evidente atraso no início do ano letivo. 

 Fotos: André Coelho